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15 de Outubro de 2019
2º Grau

Tribunal Superior do Trabalho TST - RECURSO DE REVISTA : RR 8451020115100821 - Inteiro Teor

Tribunal Superior do Trabalho
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Inteiro Teor

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A C Ó R D Ã O

(4ª Turma)

GMALR/dl/

A) AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO PELA RECLAMADA COMPANHIA DE ENERGIA ELÉTRICA DO ESTADO DO TOCANTINS - CELTINS. RETORNO DOS AUTOS PARA EVENTUAL JUÍZO DE RETRATAÇÃO. ART. 1.030, II, DO CPC/15. ACÓRDÃO REGIONAL PUBLICADO ANTES DA VIGÊNCIA DA LEI Nº 13.015/2014.

1. TERCEIRIZAÇÃO. CONCESSIONÁRIA DE SERVIÇO PÚBLICO. LICITUDE. ADPF Nº 324 E RE Nº 958.252. TESE FIRMADA PELO STF EM SEDE DE REPERCUSSÃO GERAL. APLICAÇÃO DA SÚMULA Nº 331 DO TST À LUZ DOS PRECEDENTES DO STF. PROVIMENTO.

I. O Tribunal de origem entendeu pela ilicitude da terceirização em relação às atividades desenvolvidas pela parte Autora, com consequente reconhecimento de vínculo de emprego diretamente com o tomador de serviços, na forma da Súmula nº 331, I, do TST. Esse entendimento parece divergir da tese jurídica de caráter vinculante fixada pelo Supremo Tribunal Federal acerca da matéria, consolidada em 30/08/2018, com o julgamento do RE nº 958.252 e da ADPF nº 324. Sob esse enfoque e exercendo o juízo de retratação previsto no art. 1.030, II, do CPC/2015, o recurso de revista merece processamento, por possível violação do art. 25, § 1º, da Lei nº 8.987/95. II. Juízo de retratação exercido e agravo de instrumento de que se conhece e a que se dá provimento, para determinar o processamento do recurso de revista, observando-se o disposto no ATO SEGJUD.GP Nº 202/2019 do TST.

B) RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO PELA RECLAMADA COMPANHIA DE ENERGIA ELÉTRICA DO ESTADO DO TOCANTINS - CELTINS. ACÓRDÃO REGIONAL PUBLICADO ANTES DA VIGÊNCIA DA LEI Nº 13.015/2014.

1. TERCEIRIZAÇÃO. CONCESSIONÁRIA DE SERVIÇO PÚBLICO. LICITUDE. ADPF Nº 324 E RE Nº 958.252. TESE FIRMADA PELO STF EM SEDE DE REPERCUSSÃO GERAL. APLICAÇÃO DA SÚMULA Nº 331 DO TST À LUZ DOS PRECEDENTES DO STF. CONHECIMENTO E PROVIMENTO.

I. O Supremo Tribunal Federal reconheceu a repercussão geral em relação ao tema da terceirização, cujo deslinde se deu em 30/08/2018, com o julgamento do RE nº 958.252, de que resultou a fixação da seguinte tese jurídica: "é lícita a terceirização ou qualquer outra forma de divisão do trabalho entre pessoas jurídicas distintas, independentemente do objeto social das empresas envolvidas, mantida a responsabilidade subsidiária da empresa contratante". Na mesma oportunidade, ao julgar a ADPF nº 324, a Suprema Corte firmou tese de caráter vinculante de que "1. É lícita a terceirização de toda e qualquer atividade, meio ou fim, não se configurando relação de emprego entre a contratante e o empregado da contratada. 2. Na terceirização, compete à contratante: i) verificar a idoneidade e a capacidade econômica da terceirizada; e ii) responder subsidiariamente pelo descumprimento das normas trabalhistas, bem como por obrigações previdenciárias, na forma do art. 31 da Lei 8.212/1993". A partir de então, esse entendimento passou a ser de aplicação obrigatória aos processos judiciais em curso em que se discute a terceirização, impondo-se, inclusive, a leitura e a aplicação da Súmula nº 331 do TST à luz desses precedentes. II. No caso dos autos, o Tribunal de origem entendeu pela ilicitude da terceirização em relação às atividades desenvolvidas pela parte Autora, com consequente reconhecimento de vínculo de emprego diretamente com o tomador de serviços, na forma da Súmula nº 331, I, do TST. Esse entendimento diverge da jurisprudência atual, notória e de caráter vinculante do Supremo Tribunal Federal acerca da matéria, razão pela qual o provimento ao recurso de revista é medida que se impõe. III. Recurso de revista de que se conhece, por violação do art. 25, § 1º, da Lei nº 8.987/95, e a que se dá provimento.

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Recurso de Revista nº TST-RR-845-10.2011.5.10.0821, em que é Recorrente COMPANHIA DE ENERGIA ELÉTRICA DO ESTADO DO TOCANTINS - CELTINS e são Recorridos AURIZAN FERNANDES DE SOUSA e CETEL INSTALAÇÕES ELÉTRICAS LTDA..

O Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região negou provimento ao recurso ordinário interposto pela COMPANHIA DE ENERGIA ELÉTRICA DO ESTADO DO TOCANTINS - CELTINS, mantendo a sentença em que se reconheceu o vínculo de emprego diretamente entre o Autor e a tomadora de serviços (acórdão de fls. 469/493 do documento sequencial eletrônico nº 01).

A Reclamada CELTINS interpôs recurso de revista (fls. 479/529 do documento sequencial eletrônico nº 01). A Autoridade Regional denegou seguimento ao referido recurso (decisão de fls. 535/541 do documento sequencial eletrônico nº 01), ao fundamento de que "estando o julgado alicerçado na Súmula nº 331,I, do TST, o recurso, também quanto à alegação de dissenso de teses, não merece curso, a teor da regra do artigo 896, § 4º da CLT e, ainda, da Súmula nº 333/TST". A decisão ensejou a interposição de agravo de instrumento.

Não foram apresentadas contraminuta ao agravo de instrumento nem contrarrazões ao recurso de revista.

Ao analisar o agravo de instrumento interposto pela Reclamada CELTINS, esta Quarta Turma negou-lhe provimento, mantendo a decisão denegatória do recurso de revista pelos seus próprios fundamentos (documento sequencial eletrônico nº 11).

Dessa decisão, a Reclamada CELPE interpôs recurso extraordinário (documento sequencial eletrônico nº 19), o qual foi sobrestado pela Vice-Presidência desta Corte Superior (documento sequencial eletrônico nº 24), na forma do art. 543-B, § 1º, do CPC/1973.

Julgado o mérito do recurso paradigma que fundamentou o sobrestamento do feito, retornam os autos a esta Quarta Turma, para eventual juízo de retratação, nos termos do art. 1.030, II, do CPC/2015.

É o relatório.

V O T O

A) AGRAVO DE INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA INTERPOSTO PELA RECLAMADA COMPANHIA DE ENERGIA ELÉTRICA DO ESTADO DO TOCANTINS - CELTINS

1. CONHECIMENTO

Atendidos os pressupostos legais de admissibilidade do agravo de instrumento, dele conheço.

2. MÉRITO

2.1. RETORNO DOS AUTOS PARA EVENTUAL JUÍZO DE RETRATAÇÃO. ART. 1.030, II, DO CPC/15. TERCEIRIZAÇÃO. CONCESSIONÁRIA DE SERVIÇO PÚBLICO. LICITUDE. ADPF Nº 324 E RE Nº 958.252. TESE FIRMADA PELO STF EM SEDE DE REPERCUSSÃO GERAL. APLICAÇÃO DA SÚMULA Nº 331 DO TST À LUZ DOS PRECEDENTES DO STF

Discute-se, no caso em exame, a licitude da terceirização em relação às atividades desenvolvidas pela parte Autora, com consequente reconhecimento de vínculo de emprego diretamente com o tomador de serviços, na forma da Súmula nº 331, I, do TST.

Ao analisar o agravo de instrumento interposto pela Reclamada CELTINS, esta Quarta Turma negou-lhe provimento, mantendo a decisão denegatória do recurso de revista pelos seus próprios fundamentos (documento sequencial eletrônico nº 11).

Dessa decisão, a Reclamada CELTINS interpôs recurso extraordinário (documento sequencial eletrônico nº 19), o qual foi sobrestado pela Vice-Presidência desta Corte Superior (documento sequencial eletrônico nº 24), na forma do art. 543-B, § 1º, do CPC/1973.

Retornam os autos a esta Quarta Turma por determinação do Exmo. Sr. Ministro Vice-Presidente do Tribunal Superior do Trabalho, com fulcro no art. 1.030, II, do CPC/2015, em razão da decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal no ARE nº 791.932/DF, em repercussão geral, julgado em 11/10/2018, e do disposto no Tema nº 739 do Ementário Temático de Repercussão Geral da Suprema Corte, que declarou "parcialmente inconstitucional a SÚMULA 331/TST e proclamou a licitude da terceirização de toda e qualquer atividade, meio ou fim" (documento sequencial eletrônico nº 27).

Diante da decisão da Vice-Presidência e em face da atual consolidação da jurisprudência da Corte Suprema sobre a matéria, passa-se à análise agravo de instrumento interposto pela segunda Reclamada.

A Autoridade Regional denegou seguimento ao recurso de revista interposto pela Reclamada CELPE, sob os seguintes fundamentos:

"PRESSUPOSTOS INTRÍNSECOS

LITISPENDÊNCIA.

Alegação (ões):

- violação do (s) art (s). 104 do CDC;

- divergência jurisprudencial.

A Turma, a fls. 432-v e seguintes, negou provimento ao recurso quanto à litispendência arguida em face de Ação Civil Pública ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho (processo nº 27500-89-2005-5-10-0801), conforme fundamentos expostos na ementa em destaque:

"AÇÃO INDIVIDUAL IDÊNTICA À AÇÃO COLETIVA. LITISPENDÊNCIA. INEXISTÊNCIA. A existência concomitante de ação individual com idêntico pedido e causa de pedir de ação coletiva ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho, por meio da representação extraordinária, não caracteriza litispendência, uma vez que o resultado alcançado não afeta o julgamento da ação individual. Isto porque a ação civil proposta pelo Ministério Público do Trabalho visa a tutela de direitos coletivamente considerados. No caso de decisão favorável, produz efeitos erga omnes para todos os representados que postularam a suspensão da ação individual; se desfavorável, não impede que o detentor do direito material busque o reconhecimento do direito por meio de ação individual (Inteligência dos artigos 103 e 104 do Código de Defesa do Consumidor)."(fls. 431).

A reclamada insiste na ocorrência de litispendência, insurgindo-se, portanto, contra a decisão, mediante as alegações em destaque.

Todavia, ao contrário do que alega a recorrente, a Turma observou a vedação inserta no 104 do CDC, eis que, nos termos em que delimitado o acórdão, os efeitos da decisão favorável proferida na ação coletiva apenas alcança o componente que litiga individualmente se este tiver apresentado pedido de suspensão da ação individual em trinta dias.

No que refere à alegação de divergência jurisprudencial, os arestos colacionados referem-se a situações relativas à substituição processual, o que ensejou o reconhecimento do litispendência. Incide, portanto, a diretriz da Súmula nº 296, I, do TST.

PRELIMINAR DE NULIDADE.

RESERVA DE PLENÁRIO.

Alegação (ões):

- contrariedade à Súmula Vinculante nº 10/STF;

- violação do (s) art (s). 97 da CF;

- divergência jurisprudencial.

Alega a recorrente não ter sido respeitada a reserva de plenário ao se afastar a aplicação do art. 25, § 1º, da Lei 8.987/95.

Todavia, a suposta nulidade não se viabiliza na medida em que o Colegiado, após análise fática dos autos, limitou-se a aplicar entendimento sumular (Súmula nº 331, I, do TST) sem pronunciar qualquer inconstitucionalidade. Incólume, pois, o art. 97 da CF.

Por fim, não constitui pressuposto válido a ensejar a admissibilidade do apelo a indicação da Súmula Vinculante nº 10 do STF (art. 896, alínea a, da CLT). Da mesma forma, arestos que não atendem ao parâmetro de origem estabelecido no citado dispositivo legal.

TERCEIRIZAÇÃO - LICITUDE

RECONHECIMENTO DE VÍNCULO DE EMPREGO

Alegação (ões):

- contrariedade à Súmula nº 331, I e III, e a OJSBDI-1 nº 383, ambas do TST;

- violação do (s) art (s). , II e LIV, 21, XII, 'b", 170, VIII, 175, I, e 195, I, da CF;

- violação do (s) art (s). , II, 4º, 7º-A, 14 e 25 da Lei nº 8.987/95; 3º, II, da Lei nº 9.427/96; 12, IV, da Lei nº 8.666/93, 767 da CLT;

- divergência jurisprudencial;

A Eg. 1ª Turma, a fls. 435 e seguintes, manteve a sentença em que se reconheceu o vínculo de emprego entre o autor e a segunda reclamada CELTINS. Esta foi a ementa utilizada:

"EMPRESAS CONCESSIONÁRIAS DE SERVIÇOS PÚBLICOS. TERCEIRIZAÇÃO. ATIVIDADE-FIM. IMPOSSIBILIDADE. NULIDADE DO CONTRATO. É certo que nos termos do § 1º, do art. 25, da Lei n.º 8.987/95, a concessionária" poderá contratar com terceiros o desenvolvimento de atividades inerentes, acessórias ou complementares ao serviço concedido, bem como a implementação de projetos associados". No entanto, considerando os princípios constitucionais da valorização do trabalho e da dignidade humana, conforme entendeu o C. TST no RR-27500-89.2005.5.10.0801, a interpretação teleológica da norma em comento"conduz à conclusão de que a contratação de terceiros por empresa concessionária de energia elétrica não pode atingir o objeto central do serviço público concedido". Assim sendo, as relações de trabalho terceirizado com as concessionárias de serviços públicos formam vínculo de emprego quando verificado que houve a terceirização de atividade-fim da concessionária de serviço público. Ressalvas do Relator." (fls. 431).

A recorrente, mediante as razões expostas a fls. 451 e seguintes, insiste na licitude da terceirização. Pretende, ainda, excluir da condenação o reconhecimento de relação de emprego e a assinatura da CTPS.

Todavia, a Turma, após análise minuciosa do contexto fático dos autos, consignou que os serviços prestados pelo reclamante estavam atrelados à atividade-fim da reclamada, reconhecendo, pois, a ilicitude da terceirização, em razão da fraude configurada, razão por que concluiu pela ocorrência do vínculo de emprego diretamente com a tomadora de serviços, nos termos da Súmula nº 331, I e III, do TST. Manteve, assim, a determinação quanto à anotação da CTPS, no período especificado, pela real empregadora e, ainda, as diferenças salariais deferidas.

Portanto, para se concluir contrariamente ao decidido e aferir ofensa aos dispositivos citados, contrariedade ao verbete jurisprudencial e o dissenso jurisprudencial alegado seria necessário o revolvimento de fatos e provas dos autos, o que é vedado neste momento processual, a teor da Súmula nº 126 do TST.

Ademais, a matéria discutida nestes autos já não fomenta maior debate. Nesse sentido, louvo-me nos seguintes precedentes, oriundos do colendo TST, "in verbis":

"ENERGIA ELÉTRICA - EXEGESE DO ART. 25 DA LEI Nº 8.987/95 - INTELIGÊNCIA DA SÚMULA Nº 331 DO TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO - VIOLAÇÃO DO ART. 896 DA CLT. A Lei nº 8.987, de 13 de fevereiro de 1995, que dispõe sobre o regime de concessão e permissão de prestação de serviços públicos, ostenta natureza administrativa e, como tal, ao tratar, em seu art. 25, da contratação com terceiros de atividades inerentes, acessórias ou complementares ao serviço concedido, não autorizou a terceirização da atividade-fim das empresas do setor elétrico. Isso porque, esse diploma administrativo não aborda matéria trabalhista, nem seus princípios, conceitos e institutos, cujo plano de eficácia é outro. A legislação trabalhista protege, substancialmente, um valor: o trabalho humano, prestado em benefício de outrem, de forma não eventual, oneroso e sob subordinação jurídica, apartes à já insuficiente conceituação individualista. E o protege sob o influxo de outro princípio maior, o da dignidade da pessoa humana. Não se poderia, assim, dizer que a norma administrativista, preocupada com princípios e valores do Direito Administrativo, viesse derrogar o eixo fundamental da legislação trabalhista, que é o conceito de empregado e empregador, jungido que está ao conceito de contrato de trabalho, previsto na CLT. O enunciado da Súmula nº 331 do Tribunal Superior do Trabalho guarda perfeita harmonia com princípios e normas constitucionais e trabalhistas e trouxe um marco teórico e jurisprudencial para o fenômeno da terceirização nas relações de trabalho no Brasil, importante para o desenvolvimento social e econômico do País, já que compatibilizou os princípios da valorização do trabalho humano e da livre concorrência e equilibrou a relação entre o capital e o trabalho. Recurso de embargos conhecido e parcialmente provido" (ED-E-RR - 586341-05.1999.5.18.5555 Data de Julgamento: 28/05/2009, Redator Ministro: Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, Subseção I Especializada em Dissídios Individuais, Data de Divulgação: DEJT 16/10/2009).

"RECURSO DE REVISTA. CONCESSIONÁRIA DE SERVIÇOS PÚBLICOS. TERCEIRIZAÇÃO DE SERVIÇOS COMPREENDIDOS NA ATIVIDADE-FIM. ILEGALIDADE. A interpretação teleológica do disposto no art. 25, § 1º, da Lei nº 8.987/95 - para efeito de incidência da norma às relações de trabalho e sob os influxos dos princípios constitucionais da valorização do trabalho e da dignidade humana - conduz à conclusão de que a contratação de terceiros por empresa concessionária de energia elétrica não pode atingir o objeto central do serviço público concedido. Somente pode ser contratada parcela acessória ou não essencial ao contrato, ou seja, as atividades-meio. Se o legislador tivesse a intenção de permitir a terceirização de atividades essenciais do setor elétrico, não teria adotado a expressão atividades -inerentes-, mas o diria de forma expressa. Portanto, a norma apresenta conceito aberto, permitindo que o intérprete, ao aplicá-la, concilie os valores democráticos da livre iniciativa e do direito ao trabalho. Incidente a diretriz da Súmula nº 331, I, desta Corte Superior, que disciplina as hipóteses de terceirização nas relações de trabalho, à falta de lei específica. Precedente da SBDI-1 do TST. Recurso de revista conhecido, nesse particular, e parcialmente provido" (RR - 27500-89.2005.5.10.0801 , Relator Ministro: Walmir Oliveira da Costa, Data de Julgamento: 09/06/2010, 1ª Turma, Data de Publicação: 18/06/2010).

Assim, estando o julgado alicerçado na Súmula nº 331, I, do TST, o recurso, também quanto à alegação de dissenso de teses, não merece curso, a teor da regra do artigo 896, § 4º, da CLT e, ainda, da Súmula nº 333/TST.

[...]

CONCLUSÃO

Ante o exposto, DENEGO seguimento ao recurso de revista"(fls. 535/541 do documento sequencial eletrônico nº 01)

A parte Agravante insiste no processamento do seu recurso de revista, por dissenso jurisprudencial e violação dos arts . 97, 170 e 175 da CF/88, 25, § 1º, da Lei nº 8.987/95 e 12, IV, da Lei nº 8.666/93, bem como por contrariedade à Súmula Vinculante nº 10 do STF. Em síntese, argumenta que"conforme entendimento do artigo 25, § 1º da Lei 8.987/95, restou expressamente autorizada a contratação de terceiros para atividades inerentes, acessórias ou complementares ao serviço concedido"e que"em tal autorização está inserida a terceirização implementada pela empresa Reclamada"(fl. 558 do documento sequencial eletrônico nº 01).

Consta do acórdão recorrido:

"Nulidade do Contrato de Trabalho

Na petição inicial, o reclamante aduz que foi contratado pela primeira reclamada (Cetel) para o exercício da função de eletricista instalador em 2/4/2009, prestando serviços diretamente para a segunda demandada (Celtins), executando atividades-fim desta, sendo demitido em 11/1/2011.

Alega, assim, que houve fraude na terceirização de serviços envolvendo as duas empresas demandadas, arguindo a nulidade do contrato de trabalho formalizado com a primeira reclamada.

Postula, dessarte, o reconhecimento de vínculo empregatício diretamente com a segunda ré (Celtins), ou seja, com a empresa tomadora de serviços.

Alega que o Ministério Público do Trabalho ingressou com Ação Civil Pública nº. 275.89.2005.5.10.0821, tendo como objeto a declaração de ilegalidade na terceirização dos serviços fins da concessionária de serviço público (Celtins), sendo tal litígio deferido, com recente publicação do acórdão proferido pelo C. TST (fls. 27/37).

Na contestação (fls. 112/120), refutando o pedido de nulidade da terceirização, a primeira reclamada sustenta a legalidade e regularidade da terceirização dos serviços.

A segunda reclamada corrobora a tese apresentada pela primeira reclamada, alegando que a Lei nº. 8.987/95, em seu artigo 25, § 1º permite que as concessionárias efetuem contratação de terceiros para atividades inerentes, acessórias e complementares ao serviço concedido.

A decisão a quo acolheu a alegação de nulidade do contrato de trabalho firmado entre o reclamante e a primeira reclamada e julgou procedente o pedido de reconhecimento de vínculo empregatício direto com a tomadora de serviços.

Em recurso, a segunda reclamada aduz que não há que se falar em ilicitude na terceirização perpetrada, portanto "tal prática pressupõe que o prestador de serviços terceirizados seja orientado em suas funções pelo tomador de serviços" (fl. 374). Ademais, indica que o art. 25, § 1º, da Lei nº. 8.987/95 autorizou expressamente a contratação de terceiros para atividades inerentes, acessórias ou complementares ao serviço concedido. Assim, se há autorização legal para tanto, não há que como reconhecer qualquer ilicitude na terceirização efetivada no caso vertente.

No mais, alega que, mesmo que assim não o fosse, não merece prosperar a condenação fixada pelo juízo de origem pois as tarefas exercidas pelo reclamante enquadram-se nas atividades-meio da segunda reclamada, pois somente são atividade-fim da concessionária os serviços e instalações de energia elétrica, conforme prescreve o art. 21, XII, alínea b, da Constituição Federal.

Pois bem.

Como se sabe, o reconhecimento do vínculo de emprego decorre da coexistência dos cinco elementos fático-jurídicos extraídos do caput dos artigos 2º e 3º da CLT, quais sejam: trabalho prestado por pessoa física a outrem; pessoalidade do prestador; não-eventualidade; onerosidade; e, subordinação.

Entretanto, antes de adentrar nessa discussão, imperiosa a análise da alegação de nulidade do contrato de trabalho do reclamante com a primeira reclamada em razão da possível fraude na contratação desta para prestação de serviços perante a segunda reclamada.

De fato, existe legislação autorizando as concessionárias de serviços públicos a contratarem a prestação de serviços com terceiros. Senão, vejamos o que dispõe a Lei n.º 8.987/95:

"Art. 25. Incumbe à concessionária a execução do serviço concedido, cabendo-lhe responder por todos os prejuízos causados ao poder concedente, aos usuários ou a terceiros, sem que a fiscalização exercida pelo órgão competente exclua ou atenue essa responsabilidade.

§ 1o Sem prejuízo da responsabilidade a que se refere este artigo, a concessionária poderá contratar com terceiros o desenvolvimento de atividades inerentes, acessórias ou complementares ao serviço concedido, bem como a implementação de projetos associados" (sem destaque no original).

Contudo, quanto à interpretação do dispositivo acima transcrito, o C. TST tem-se manifestado recentemente no seguinte sentido:

"TERCEIRIZAÇÃO ILÍCITA. EMPRESA CONCESSIONÁRIA DE SERVIÇO DE ENERGIA ELÉTRICA. PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS DE MANUTENÇÃO DE LINHAS E REDES DE DISTRIBUIÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA. RECLAMANTE ELETRICISTA. ATIVIDADE FIM DA RECLAMADA TOMADORA DE SERVIÇOS. INTERPRETAÇÃO DOS ARTIGOS 25, § 1º, DA LEI Nº 8.987/95 E DO ARTIGO 94, II, DA LEI Nº 9.472/97 E APLICAÇÃO DA SÚMULA Nº 331, ITENS I E III, DO TST. VÍNCULO DE EMPREGO ENTRE A TOMADORA DE SERVIÇOS E O TRABALHADOR TERCEIRIZADO RECONHECIDO. 1. Discute-se nestes autos a possibilidade de terceirização das atividades de instalação e reparação de linhas telefônicas e a incidência ou não, nesses casos, do item I da Súmula nº 331 do TST. Embora o entendimento consagrado nesta Súmula tenha sido no sentido de se admitir a licitude da terceirização de forma bem mais ampla e generalizada que a Súmula nº 256 desta Corte que antes tratava da matéria, isso não significou considerá-la lícita em todo e qualquer caso. Levando-se em conta a finalidade da terceirização, que é permitir a concentração dos esforços da empresa tomadora de serviços em suas atividades essenciais por meio da contratação da prestação de serviços especializados por terceiros nas suas demais atividades, consagrou-se, no item III da citada Súmula nº 331, a autorização para a contratação de serviços especializados ligados à atividade-meio do tomador, ou seja, a contrario sensu, a terceirização, continuou sendo considerada ilícita, sob pena de formação do vínculo de emprego dos trabalhadores terceirizados com o tomador dos serviços, nos termos de seu item I, toda e qualquer terceirização das atividades-fim das empresas. 2. Esse limite deve também ser observado, por identidade de motivos, nas atividades das empresas concessionárias ou permissionárias dos ramos de energia elétrica e de telecomunicações. Com efeito, a Lei nº 8.987/95, que disciplina a atuação das empresas concessionárias e permissionárias de serviço público em geral, e a Lei nº 9.472/97, que regula as telecomunicações, são normas de Direito Administrativo e, como tais, não foram promulgadas para regular matéria trabalhista, devendo a questão da licitude e dos efeitos da terceirização ser decidida exclusivamente pela Justiça do Trabalho, com base nos princípios e nas regras que norteiam o Direito do Trabalho, de forma a interpretar e, eventualmente, aplicá-las, de modo a não esvaziar de sentido prático ou a negar vigência e aplicação às normas trabalhistas, que, em nosso País, disciplinam a prestação de trabalho subordinado, em especial os artigos 2º e 3º da CLT. 3. Por via de consequência, não se pode mesmo interpretar o § 1º do artigo 25 da Lei nº 8.987/95 e o artigo 94, inciso II, da Lei nº 9.472/97, de que a autorização por eles dada a empresa concessionária dos serviços de telecomunicações para contratar, com terceiros, o desenvolvimento de atividades inerentes ao serviço tornaria lícita a terceirização de suas atividades-fim, o que, em última análise, acabaria por permitir que elas desenvolvessem sua atividade empresarial sem ter em seus quadros nenhum empregado, e sim, apenas, trabalhadores terceirizados. 4. Assim, quando os órgãos fracionários dos Tribunais trabalhistas interpretam preceitos legais como os ora examinados, de forma a não produzir resultados absurdos e incompatíveis com o Direito do Trabalho e mediante a aplicação de outras normas infraconstitucionais existentes no ordenamento jurídico, não estão, em absoluto, infringindo o disposto na Súmula Vinculante nº 10, tampouco violando o artigo 97 da Constituição Federal, referente à cláusula de reserva de Plenário, pois não se estará utilizando critérios constitucionais, nem mesmo de forma implícita. 5. Por outro lado, não se pode considerar que a prestação dos serviços de instalação e manutenção de linhas telefônicas no âmbito das empresas de telecomunicação caracterize atividade-meio, e não atividade-fim. 6. Esta questão da legalidade ou ilegalidade da terceirização das atividades-fim das empresas de telecomunicações, por serem inerentes à sua atuação, foi recentemente objeto de decisão da Subseção I da Seção Especializada em Dissídios Individuais (SBDI-1) deste Tribunal Superior do Trabalho, em 28/06/2011, em sua composição completa, no julgamento do Processo E-RR - 134640-23.2008.5.03.0010, que teve como Relatora a Ministra Maria de Assis Calsing, em que, por expressiva maioria (nove votos a favor e cinco contra), entendeu-se que as empresas de telecomunicações se encontram igualmente sujeitas às diretrizes insertas na Súmula nº 331, itens I e III, relativamente, portanto, à impossibilidade de terceirização das atividades-fim dessas empresas, entre as quais se incluem, por óbvio, a instalação e a manutenção das linhas telefônicas (atividade de cabista). Ao assim decidir, a SBDI-1 nada mais fez do que exercer sua função precípua, legal e regimental: dirimir a divergência jurisprudencial entre as Turmas desta Corte, até então existente, sobre a matéria, consagrando a tese a ser observada dali por diante pelos órgãos fracionários deste Tribunal Superior, nos termos e para os efeitos do artigo 894, inciso II, da CLT, do artigo , inciso III, alínea 'b', da Lei nº 7.701/88 (ambos na redação que lhes foi dada pela Lei nº 11.496/2006), bem como do artigo 71, inciso II, alínea 'a', do Regimento Interno desse Tribunal. 7. É certo que aquela decisão da SBDI-1 foi proferida antes da realização da Audiência Pública ocorrida nos dias 04 e 05 de outubro de 2011 e convocada pela Presidência desse Tribunal, nos termos do artigo 35, inciso XXXVI, do seu Regimento Interno, e que implicou a oitiva de quase cinquenta especialistas e integrantes da sociedade civil, com o objetivo de obter subsídios e esclarecimentos acerca das questões fáticas, técnicas, científicas, econômicas e sociais relativas à subcontratação de mão de obra por meio de interposta pessoa. No entanto, os elementos trazidos à consideração dos Ministros do TST, naquela oportunidade, não se mostraram capazes de alterar o já citado entendimento recentemente consagrado pela SBDI-1 do TST, em sua sessão de 28/06/2011, no desempenho de seu papel legal e regimental precípuo. Com efeito, extrai-se do conjunto de manifestações aduzidas na referida Audiência Pública que a alegação, feita pelos defensores da terceirização em geral (e, inclusive, das atividades-fim empresariais), de que, por seu intermédio, é possível atingir-se maior eficiência e produtividade e a geração de mais riqueza e mais empregos, foi amplamente refutada pelos vastos dados estatísticos e sociológicos apresentados por aqueles que sustentaram, ao contrário, que a terceirização das atividades-fim é um fator de precarização do trabalho, caracterizando-se pelos baixos salários dos empregados terceirizados e pela redução indireta do salário dos empregados das empresas tomadoras, pela maior instabilidade no emprego e ausência de estímulo à maior produtividade dos trabalhadores terceirizados, pela divisão e desorganização dos integrantes da categoria profissional que atua no âmbito das empresas tomadoras, com a consequente pulverização da representação sindical de todos os trabalhadores interessados e, por fim, pelos comprovadamente maiores riscos de acidente de trabalho. 8. Assim, diante da ilicitude da terceirização das atividades de manutenção de linhas e redes de distribuição de energia elétrica pelas empresas concessionárias de serviço de energia elétrica, nas quais se insere a exercida pelo reclamante, eletricista, deve ser reconhecida a existência, por todo o período laborado, de vínculo de emprego diretamente com a concessionária de serviços de telefonia nos exatos moldes do item I da Súmula nº 331 do TST com o pagamento de todos os seus consectários legais objeto do pedido inicial. Recurso de revista não conhecido".(TST, 2ª Turma, -RR-99500-12.2005.5.15.0005, Rel. Min. José Roberto Freire Pimenta, DEJT 19/12/2011- sem destaque no original).

"RECURSO DE EMBARGOS - AÇÃO CIVIL PÚBLICA - TERCEIRIZAÇÃO EM ATIVIDADE-FIM - EMPRESA DO RAMO DE ENERGIA ELÉTRICA - EXEGESE DO ART. 25 DA LEI Nº 8.987/95 - INTELIGÊNCIA DA SÚMULA Nº 331 DO TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO - VIOLAÇÃO DO ART. 896 DA CLT. A Lei nº 8.987, de 13 de fevereiro de 1995, que dispõe sobre o regime de concessão e permissão de prestação de serviços públicos, ostenta natureza administrativa e, como tal, ao tratar, em seu art. 25, da contratação com terceiros de atividades inerentes, acessórias ou complementares ao serviço concedido, não autorizou a terceirização da atividade-fim das empresas do setor elétrico. Isso porque, esse diploma administrativo não aborda matéria trabalhista, nem seus princípios, conceitos e institutos, cujo plano de eficácia é outro. A legislação trabalhista protege, substancialmente, um valor: o trabalho humano, prestado em benefício de outrem, de forma não eventual, oneroso e sob subordinação jurídica, apartes à já insuficiente conceituação individualista. E o protege sob o influxo de outro princípio maior, o da dignidade da pessoa humana. Não se poderia, ...