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29 de Junho de 2022
  • 2º Grau
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Tribunal Superior do Trabalho TST - EMBARGOS DECLARATORIOS: E-ED-ARR 401-27.2013.5.12.0020 - Inteiro Teor

Tribunal Superior do Trabalho
há 7 anos

Detalhes da Jurisprudência

Publicação

DEJT 08/06/2015

Relator

Lelio Bentes Corrêa

Documentos anexos

Inteiro TeorTST_E-ED-ARR_4012720135120020_509f6.pdf
Inteiro TeorTST_E-ED-ARR_4012720135120020_a6c86.rtf
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Inteiro Teor

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Embargante:AUTO POSTO DOIS TREVOS LTDA.

Advogado:Dr. Alexandre Maurício Andreani

Embargado:MARGARIDA APARECIDA GONÇALVES E OUTRO

Advogado:Dr. Herlli Cristina Fernandes Toigo

D E C I S Ã O

Recurso de embargos interposto pela reclamada, sob a égide da Lei n.º 13.015/2014, à decisão proferida pela Primeira Turma desta Corte superior, mediante a qual se deu provimento ao recurso de revista interposto pelos reclamantes. Em atenção ao disposto na Instrução Normativa n.º 35/2012, passa-se ao exame da admissibilidade do recurso.

PRESSUPOSTOS EXTRÍNSECOS DE ADMISSIBILIDADE RECURSAL.

O apelo é tempestivo. O acórdão prolatado foi publicado em 19/12/2014, sexta-feira (sequência 14), e as razões recursais protocolizadas em 2/2/2015 (sequência 29). A reclamada está regularmente representada nos autos, consoante procuração acostada à p. 90 da sequência 1. Custas processuais recolhidas pela reclamada, à p. 1 da sequência 21. Desnecessário o depósito recursal, ante a inexistência de condenação nos autos.

PRESSUPOSTOS INTRÍNSECOS DE ADMISSIBILIDADE RECURSAL.

A egrégia Primeira Turma desta Corte superior, mediante acórdão prolatado às pp. 1/22 da sequência 6, conheceu do recurso de revista interposto pelos reclamantes, e, no mérito, deu-lhe provimento especificamente quanto ao tema -danos morais e materiais - responsabilidade objetiva - acidente de trânsito - motorista de caminhão-. Valeu-se, para tanto, dos seguintes fundamentos:

DANOS MORAIS E MATERIAIS. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. ACIDENTE DE TRÂNSITO. MOTORISTA DE CAMINHÃO.

A responsabilidade do empregador por danos sofridos por seus empregados em razão da execução do contrato de emprego é questão que vem exigindo profunda análise da Justiça do Trabalho, mormente após o elastecimento da sua competência material, com a promulgação da Emenda Constitucional n.º 45/2004. Dentre as questões afetas a essa matéria, a aplicação das teorias da responsabilidade civil subjetiva e objetiva representa o ponto de maior controvérsia entre os operadores do direito.

O Código Civil de 1916, de cunho eminentemente individualista, adotou a teoria da responsabilidade civil subjetiva, em seu artigo 186, impondo ao agente do ato ilícito o dever de indenizar apenas quando comprovada a conduta dolosa ou culposa do agressor, o dano e o nexo de causalidade entre a conduta e a lesão ao patrimônio jurídico do ofendido.

O novo Código Civil, influenciado pela nova ordem jurídica constitucional inaugurada em 1988, rompeu com o individualismo tutelado pelo Código revogado, adotando como parâmetro "a justiça social e o respeito da dignidade da pessoa humana (Constituição da República, art. 1º, III)" (cf. DINIZ, Maria Helena, Direito civil brasileiro, vol. 01, ed. 20, Saraiva: São Paulo, 2003).

Assim, diante do deslocamento do objeto tutelado pelo ordenamento jurídico, o Código Civil de 2002 passou a adotar, expressamente, a teoria da responsabilidade civil objetiva, fundada no risco da atividade, deixando a encargo do magistrado a conceituação de "atividade de risco". Nesse sentido, observe-se o disposto no artigo 927, parágrafo único, do Código Civil:

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.

Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.

No mesmo sentido leciona Mauricio Godinho Delgado (in Curso de Direito do Trabalho, 6ª ed., São Paulo: Ltr, 2007, p. 621/622):

(...) o novo diploma civil fixa também em seu artigo 927 e parágrafo único preceito de responsabilidade objetiva independente de culpa "quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem". Ora, tratando-se de atividade empresarial, ou de dinâmica laborativa (independentemente da atividade da empresa), fixadoras de risco para os trabalhadores envolvidos, desponta a exceção ressaltada pelo parágrafo único do art. 927 do CCB/2002, tornando objetiva a responsabilidade empresarial por danos acidentários (responsabilidade em face do risco).

Note-se a sabedoria da ordem jurídica: a regra geral mantém-se com a noção da responsabilidade subjetiva, mediante aferição da culpa do autor do dano (art. 159, CCB/1916; art. 186, CCB/2002). Entretanto, se a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano (no estudo em questão, a empresa) implicar, por sua natureza, risco para os trabalhadores envolvidos, ainda que em decorrência da dinâmica laborativa imposta por essa atividade, incide a responsabilidade objetiva fixada pelo Direito (art. 927, parágrafo único, CCB/2002).

Conforme destaca Carlos Roberto Gonçalves (in Responsabilidade Civil, 13ª ed., Saraiva: São Paulo, 2011), a teoria da responsabilidade civil objetiva "desloca-se da noção de culpa para a ideia de risco, ora encarado como `risco-proveito-, que se funda no princípio segundo o qual é reparável o dano causado a outrem em consequência de uma atividade realizada em benefício do responsável (ubi emolumentum, ibi ônus)".

Assim, a teoria da responsabilidade civil objetiva, adotada no parágrafo único do artigo 927 do Código Civil, fundada no risco da atividade, prescinde da existência de culpa ou dolo do agente, bastando a comprovação do nexo de causalidade entre a conduta e o dano. Frise-se não se tratar de mera inversão do ônus da prova, consagrada pela teoria da culpa presumida, adotada, por exemplo, no artigo 936 do Código Civil, de seguinte teor:

Art. 936. O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este causado, se não provar culpa da vítima ou força maior.

Importante destacar, ainda, que a teoria objetiva não se confunde com a teoria do risco integral, para a qual a culpa exclusiva da vítima, o caso fortuito e a força maior não influenciam no dever de indenizar.

José Cretella Júnior, ao discorrer sobre a teoria do risco integral, ressalta que esta "é a modalidade extremada do risco administrativo, abandonada, na prática, por conduzir ao abuso e à iniquidade social. Por essa fórmula radical, a Administração ficaria obrigada a indenizar todo e qualquer dano suportado por terceiros, ainda que resultante de culpa ou dolo da vítima" (in Comentários à Constituição Brasileira de 1988, 2ª ed., Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1992, pág. 2.330).

A professora Maria Sylvia Zanella di Pietro, examinando a responsabilidade civil objetiva do Estado, consagrada no § 6º do artigo 37 da Constituição da República, ensina que "são apontadas como causas excludentes da responsabilidade a força maior e a culpa exclusiva da vítima" (in Direito Administrativo, 20ª ed., São Paulo: Atlas, 2007, pág. 602).

O próprio Supremo Tribunal Federal sufragou o entendimento de que a responsabilidade civil do Poder Público, fundada na teoria objetiva, é afastada quando comprovada a existência de caso fortuito, força maior ou culpa exclusiva da vítima. Nesse sentido, atente-se para o seguinte precedente:

INDENIZAÇÃO - RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO PODER PÚBLICO - TEORIA DO RISCO ADMINISTRATIVO - PRESSUPOSTOS PRIMÁRIOS DE DETERMINAÇÃO DESSA RESPONSABILIDADE CIVIL - DANO CAUSADO A ALUNO POR OUTRO ALUNO IGUALMENTE MATRICULADO NA REDE PÚBLICA DE ENSINO - PERDA DO GLOBO OCULAR DIREITO - FATO OCORRIDO NO RECINTO DE ESCOLA PÚBLICA MUNICIPAL - CONFIGURAÇÃO DA RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA DO MUNICÍPIO - INDENIZAÇÃO PATRIMONIAL DEVIDA - RE NÃO CONHECIDO. RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA DO PODER PÚBLICO - PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL. - A teoria do risco administrativo, consagrada em sucessivos documentos constitucionais brasileiros desde a Carta Política de 1946, confere fundamento doutrinário à responsabilidade civil objetiva do Poder Público pelos danos a que os agentes públicos houverem dado causa, por ação ou por omissão. Essa concepção teórica, que informa o princípio constitucional da responsabilidade civil objetiva do Poder Público, faz emergir, da mera ocorrência de ato lesivo causado à vítima pelo Estado, o dever de indenizá-la pelo dano pessoal e/ou patrimonial sofrido, independentemente de caracterização de culpa dos agentes estatais ou de demonstração de falta do serviço público. - Os elementos que compõem a estrutura e delineiam o perfil da responsabilidade civil objetiva do Poder Público compreendem (a) a alteridade do dano, (b) a causalidade material entre o eventus damni e o comportamento positivo (ação) ou negativo (omissão) do agente público, (c) a oficialidade da atividade causal e lesiva, imputável a agente do Poder Público, que tenha, nessa condição funcional, incidido em conduta comissiva ou omissiva, independentemente da licitude, ou não, do comportamento funcional (RTJ 140/636) e (d) a ausência de causa excludente da responsabilidade estatal (RTJ 55/503 - RTJ 71/99 - RTJ 91/377 - RTJ 99/1155 - RTJ 1 31/417). - O princípio da responsabilidade objetiva não se reveste de caráter absoluto, eis que admite o abrandamento e, até mesmo, a exclusão da própria responsabilidade civil do Estado, nas hipóteses excepcionais configuradoras de situações liberatórias - como o caso fortuito e a força maior - ou evidenciadoras de ocorrência de culpa atribuível à própria vítima (RDA 137/233 - RTJ 55/50). RESPONSABILIDADE CIVIL DO PODER PÚBLICO POR DANOS CAUSADOS A ALUNOS NO RECINTO DE ESTABELECIMENTO OFICIAL DE ENSINO. - O Poder Público, ao receber o estudante em qualquer dos estabelecimentos da rede oficial de ensino, assume o grave compromisso de velar pela preservação de sua integridade física, devendo empregar todos os meios necessários ao integral desempenho desse encargo jurídico, sob pena de incidir em responsabilidade civil pelos eventos lesivos ocasionados ao aluno. - A obrigação governamental de preservar a intangibilidade física dos alunos, enquanto estes se encontrarem no recinto do estabelecimento escolar, constitui encargo indissociável do dever que incumbe ao Estado de dispensar proteção efetiva a todos os estudantes que se acharem sob a guarda imediata do Poder Público nos estabelecimentos oficiais de ensino. Descumprida essa obrigação, e vulnerada a integridade corporal do aluno, emerge a responsabilidade civil do Poder Público pelos danos causados a quem, no momento do fato lesivo, se achava sob a guarda, vigilância e proteção das autoridades e dos funcionários escolares, ressalvadas as situações que descaracterizam o nexo de causalidade material entre o evento danoso e a atividade estatal imputável aos agentes públicos. (STF- RE-109615/RJ, 1ª Turma, Relator Ministro Celso de Melo, publicado no DJU de 2/8/1996).

Conquanto consagrada expressamente a adoção da teoria da responsabilidade civil objetiva nas atividades de risco apenas em 2002, a legislação trabalhista brasileira, na vanguarda da tutela dos direitos humanos no Brasil, já previa, desde 1943, a responsabilidade civil objetiva do empregador pela reparação dos danos materiais e morais sofridos pelos empregados, decorrentes da execução do contrato de emprego.

Com efeito, a assunção dos riscos da atividade econômica, prevista no artigo 2º da Consolidação das Leis do Trabalho, compreende não apenas os riscos financeiros da atividade empresarial, mas todo o risco que essa atividade econômica representa para a sociedade e, principalmente, para seus empregados. Interpretação diversa violaria o princípio da função social da empresa (artigo 170, III, da Constituição da República).

Ao assumir os riscos inerentes à atividade econômica, o empregador assume o ônus de responder, de forma objetiva, por todos os danos causados por sua atividade empresarial. Não seria lógico entender que, embora assumindo os riscos da atividade, o empregador respondesse de forma subjetiva pelos danos causados a seus empregados. A se acolher tal entendimento, estar-se-ia desvirtuando a regra do artigo 2º da Consolidação das Leis do Trabalho, criando-se uma reserva quanto à responsabilidade da empresa, pois, embora assumindo os riscos da atividade, incumbiria ao trabalhador ofendido a prova de que o dano foi causado por culpa ou dolo do empregador.

A jurisprudência desta Corte superior, após certa controvérsia, sufragou a aplicação da teoria da responsabilidade civil objetiva apenas nas hipóteses em que a atividade empresarial é considerada de risco. Destaquem-se, nesse sentido, os seguintes precedentes (os grifos não são do original):

RECURSO DE EMBARGOS INTERPOSTO NA VIGÊNCIA DA LEI 11.496/2007. ACIDENTE DE TRABALHO. DANO MORAL. RESPONSABILIDADE CIVIL DO EMPREGADOR. TEORIA DO RISCO. ART. 7.º, CAPUT E INCISO XXVIII, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. MOTORISTA. ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO. POSSIBILIDADE. O caput do art. 7.º da Constituição Federal constitui-se tipo aberto, vocacionado a albergar todo e qualquer direito quando materialmente voltado à melhoria da condição social do trabalhador. A responsabilidade subjetiva do empregador, prevista no inciso XXVIII do referido preceito constitucional, desponta, sob tal perspectiva, como direito mínimo assegurado ao obreiro. Trata-se de regra geral que não tem o condão de excluir ou inviabilizar outras formas de alcançar o direito ali assegurado. Tal se justifica pelo fato de que, não raro, afigura-se difícil, se não impossível, a prova da conduta ilícita do empregador, tornando intangível o direito que se pretendeu tutelar. Não se pode alcançar os ideais de justiça e equidade do trabalhador - ínsitos à teoria do risco -, admitindo interpretações mediante as quais, ao invés de tornar efetivo, nega-se, por equivalência, o direito à reparação prevista na Carta Magna. Consentâneo com a ordem constitucional, portanto, o entendimento segundo o qual é aplicável a parte final do parágrafo único do art. 927 do CCB, quando em discussão a responsabilidade civil do empregador por acidente de trabalho. Verifica-se, ademais que, no caso concreto, a atividade de motorista exercida pelo Reclamante configura-se de risco. A despeito de tratar-se de um ato da vida comum - dirigir automóvel, que estaria inserido, como tal, no risco genérico, a frequência do exercício de tal atividade, necessária e habitual à consecução dos objetivos patronais, expõe o Reclamante a maior probabilidade de sinistro. Esse é o entendimento que adoto acerca do assunto, não obstante tenho me posicionado de forma diversa no âmbito da Quarta Turma, por questão de disciplina judiciária. Embargos conhecidos e desprovidos. (TST-E-ED- RR-102300-42.2007.5.03.0016, SBDI-I, Relatora Ministra Maria de Assis Calsing, divulgado no DEJT de 18/11/2011).

[...]

Conclui-se, assim, que o risco ordinário, ínsito ao dia a dia, dá azo à responsabilidade subjetiva, fundada no dolo ou na culpa do agressor. De outro lado, o risco extraordinário, decorrente de atividade que extrapola o perigo comum, enseja a responsabilidade objetiva do agente causador.

Com efeito, não se permite mais a persecução do lucro, objetivo da atividade empresária (artigo 981 do Código Civil), sem o resguardo da função social da empresa, que impõe ao empresário a observância das normas de defesa ao meio ambiente, ao consumidor e, principalmente, ao trabalhador - principal elemento integrante do conceito da atividade organizada (artigo 966 do Código Civil).

Frise-se, ainda, que o reconhecimento da responsabilidade civil objetiva não é incompatível com o disposto no artigo 7º, XXVIII, da Constituição da República, visto que a cabeça do mesmo dispositivo assegura a observância de outros direitos que visem à melhoria da condição social dos trabalhadores. Tal dispositivo apenas consagra o mínimo de direitos que devem ser assegurados ao trabalhador. Ressaltou o Exmo. Ministro Joaquim Barbosa, ao proferir seu voto no julgamento da ADI 639, que "o art. 7º da Constituição não exaure a proteção dos direitos sociais". Segundo o professor Alexandre de Moraes, "no art. 7º, o legislador constituinte definiu alguns direitos constitucionais dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social" (in Direito Constitucional, 12ª ed., São Paulo: Atlas, 2002, pág. 204).

Nesse contexto, é inevitável o reconhecimento de que a atividade de condutor de veículo rodoviário (motorista de caminhão), em face de sua natureza, configura atividade de risco, porquanto expõe o trabalhador à probabilidade da ocorrência de sinistros durante as viagens - como no caso dos autos, em que o empregado foi vítima de acidente de trânsito. Conquanto o acidente não tenha contado com a participação do empregador, tal circunstância não elide sua responsabilidade, porquanto o risco gerado decorre da própria atividade que explora, como tem sido reiteradamente reconhecido por esta Corte superior, conforme precedentes abaixo:

RECURSO DE EMBARGOS EM RECURSO DE REVISTA. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAL E MATERIAL DECORRENTE DE ACIDENTE DE TRABALHO. MOTORISTA DE CAMINHÃO EM RODOVIAS. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. Entende-se, como regra geral, que a responsabilidade do empregador, em se tratando de dano moral decorrente de acidente de trabalho, é subjetiva, mas, uma vez demonstrado que a atividade era de risco, ou seja, que o dano era potencialmente esperado, dadas as atividades desenvolvidas, não há como negar a responsabilidade objetiva da empresa. No caso dos autos, indene de dúvidas que a função exercida pelo empregado, como motorista carreteiro, o colocava em maior probabilidade de vir a sofrer acidentes rodoviários, levando em conta o arriscado e complicado trânsito das rodovias brasileiras e a possibilidade de enfrentar condições adversas no que concerne às condições de tráfego. É incontestável também que a empresa se utilizava da força de trabalho do empregado na condução de veículos em estradas, no transporte rodoviário de cargas. Trata-se portanto, de típica responsabilidade objetiva. Precedentes. Recurso de embargos conhecido por divergência jurisprudencial e não provido. (E-ED- RR-276-57.2010.5.03.0071, Relator Ministro Alexandre de Souza Agra Belmonte, Subseção I Especializada em Dissídios Individuais, DEJT 22/08/2014).

[...]

No mesmo sentido orientam-se os seguintes precedentes desta Corte uniformizadora: RR-217-15.2010.5.12.0008, Relator Ministro José Roberto Freire Pimenta, 2ª Turma, DEJT de 27/9/2013; RR-881-92.2010.5.12.0025, Relator Desembargador Convocado Valdir Florindo, 7ª Turma, DEJT de 28/6/2013; RR-370300-80.2007.5.09.0069, Relator Ministro João Batista Brito Pereira, 5ª Turma, DEJT de 21/6/2013.

Frise-se, por oportuno, que a caracterização do dano moral prescinde da comprovação objetiva da dor, sofrimento ou abalo psicológico experimentados pela vítima, especialmente diante da impossibilidade de sua comprovação material. Considera-se, assim, a ocorrência do dano in re ipsa, como bem ressaltado pelo eminente Ministro Walmir Oliveira da Costa na oportunidade do julgamento do processo TST- RR-1957740-59.2003.5.09.0011, publicado no DEJT de 4/2/2011:

O dano moral em si não é suscetível de prova, em face da impossibilidade de fazer demonstração, em juízo, da dor, do abalo moral e da angústia sofridos. O dano ocorre -in re ipsa-, ou seja, o dano moral é consequência do próprio fato ofensivo, de modo que, comprovado o evento lesivo, tem-se, como consequência lógica, a configuração de dano moral, exsurgindo a obrigação de pagar indenização, nos termos do art. 5º, X, da Constituição Federal.

Na hipótese dos autos, a atividade desenvolvida pelo de cujus - transporte rodoviário de cargas - enquadrava-se no conceito de atividade de risco previsto no artigo 927, parágrafo único, do Código Civil, razão pela qual incide, na espécie, a responsabilidade civil objetiva do empregador pelos danos decorrentes de acidente do trabalho.

Considerando que não há nas peças passíveis de exame em sede extraordinária elementos fáticos suficientes a viabilizar a mensuração da extensão e da gravidade dos danos suportados pelos reclamantes, afigura-se imperioso o retorno dos autos à Corte regional, a fim de que prossiga no julgamento do recurso ordinário interposto pelos reclamantes em relação ao valor das indenizações por danos morais e materiais, superada a ausência de responsabilidade da reclamada.

Ante o exposto, dou provimento ao recurso de revista para, reformando a decisão recorrida quanto ao reconhecimento da responsabilidade do empregador pelos danos decorrentes do acidente do trabalho, determinar o retorno dos autos ao Tribunal Regional de origem, a fim de que prossiga no julgamento do recurso ordinário interposto pelos reclamantes em relação ao valor das indenizações por danos morais e materiais, superada a ausência de responsabilidade da reclamada, como entender de direito.

Quando do julgamento dos embargos de declaração interpostos pela reclamada, o douto Órgão fracionário prestou os seguintes esclarecimentos:

A Primeira Turma deu provimento ao recurso de revista interposto pelo reclamante para atribuir à reclamada a responsabilidade objetiva pelo acidente de trânsito que vitimou fatalmente o ex-empregado, determinando o retorno dos autos ao Tribunal Regional de origem para fixação do valor das indenizações por danos moral e material.

Sustenta a embargante a existência de omissão no julgado quanto ao exame da alegação de culpa exclusiva da vítima, uma vez que, no momento do acidente, o de cujus não usava cinto de segurança.

Ao exame.

Constata-se omissão no acórdão embargado quanto à alegação veiculada nas contrarrazões do recurso de revista relativa à culpa exclusiva da vítima, pela ausência do uso do cinto de segurança.

Impõe-se, portanto, o exame da questão a fim de complementar o julgado.

Conquanto no presente caso tenha o Tribunal Regional se convencido de que a ausência do uso do cinto de segurança fora determinante para a ocorrência do óbito do ex-empregado, esta Corte superior tem realçado a obrigação do empregador de exigir de seus empregados e fiscalizar o uso dos equipamentos de segurança, não sendo diferente em relação ao cinto de segurança.

O Tribunal Regional não esclarece se a reclamada exercia efetiva fiscalização quanto ao uso de cinto por seus motoristas.

Com efeito, é dever do empregador, conforme se infere do artigo 157 da Consolidação das Leis do Trabalho, proporcionar aos empregados um ambiente de trabalho seguro, adotando medidas preventivas de acidentes, tais como o fornecimento de equipamentos de proteção, orientações, treinamentos, cursos, etc. Por outro lado, nos termos do artigo 158 consolidado, cabe aos empregados observar as normas de segurança e as instruções dadas pelo empregador, sob pena de incorrer em conduta faltosa sujeita, inclusive, à dispensa por justa causa, por insubordinação ou indisciplina (artigo 482, h, da Consolidação das Leis do Trabalho).

Resulta daí que a ausência do uso cinto de segurança, conquanto possa interferir na fixação da indenização, não é suficiente para configurar a culpa exclusiva da vítima e, por conseguinte, afastar a responsabilidade objetiva do empregador pelo acidente de trânsito sofrido pelo ex-empregado, haja vista o dever da demandada de exigir e fiscalizar o uso do equipamento de segurança sob comento.

Nesse sentido, vale mencionar o seguinte precedente (grifos acrescidos):

RECURSO DE REVISTA. ACIDENTE DE TRABALHO. MORTE DO EMPREGADO. MOTORISTA DE ÔNIBUS. RESPONSABILIDADE CIVIL DO EMPREGADOR. Inobstante ao fato de que a atividade desempenhada pelo reclamante - motorista de ônibus-, implica maior exposição a risco do que aos demais da coletividade, razão pela qual responderia a reclamada, independentemente de culpa, pelos danos sofridos pelo reclamante, diante da aplicação da teoria do risco, verifica-se que, conforme registrado no acórdão do Regional, está evidenciada a culpa da empregadora, por não ter adotado as necessárias medidas preventivas exigidas pela ordem jurídica em matéria de segurança e saúde no trabalho. A recorrente se omitiu quanto às providências com o fim de preservar a vida e a integridade física de seus empregados, pois não fiscalizava nem exigia a utilização do cinto de segurança por parte dos motoristas, em que pese a obrigação do empregador, na direção da atividade econômica, de proporcionar ambiente de trabalho seguro e saudável, de modo a evitar acidentes ou doenças relacionadas com o trabalho. Nesse contexto, não há violação dos dispositivos invocados. Recurso de revista de que não se conhece ( RR - 111500-33.2009.5.04.0030, Relatora Ministra: Kátia Magalhães Arruda, 6ª Turma, DEJT 24/05/2013).

No caso, houve por bem a Turma superar a ausência de responsabilidade da reclamada e determinar o retorno dos autos ao Tribunal Regional de origem para definir os valores das indenizações pelos danos moral e material, como entender de direito, o que ensejará o exame de diversas circunstâncias atinentes ao infortúnio, dentre as quais, os detalhes do acidente, a gravidade da lesão e a conduta do empregador e do empregador.

Ante o exposto, dou provimento aos embargos de declaração para, sanando omissão, prestar esclarecimentos sem imprimir-lhes efeito modificativo.

Inconformada, interpõe a reclamada o presente recurso de embargos à SDI, mediante as razões que aduz às pp. 1/44 da sequência 20. Busca a reforma do julgado ao argumento de que a regra prevista no artigo 927, parágrafo único, do Código Civil, não se aplica à Justiça do Trabalho. Frisa que, de acordo com a disposição constitucional, a modalidade de responsabilidade civil aplicável nesta Justiça especializada é a subjetiva. Alega que a atividade de motorista de caminhão não se caracteriza como de risco. Assevera que não se admite o revolvimento de fatos e provas nesta instância superior, razão pela qual não cabia à Turma avaliar se ocorreu ou não a efetiva fiscalização do uso do cinto de segurança. Esgrime com contrariedade à Súmula n.º 126 desta Corte superior, além de transcrever arestos para cotejo de teses.

Afasta-se, de início, a alegação de contrariedade à Súmula n.º 126 do TST uma vez que o douto Órgão fracionário apenas deu novo enquadramento jurídico aos fatos consignados pela Corte de origem para reconhecer que a ausência do uso do cinto de segurança não é suficiente para que se configure a culpa exclusiva da vítima, registrando que -esta Corte superior tem realçado a obrigação do empregador de exigir de seus empregados e fiscalizar o uso dos equipamentos de segurança, não sendo diferente em relação ao cinto de segurança [...] Resulta daí que a ausência do uso cinto de segurança, conquanto possa interferir na fixação da indenização, não é suficiente para configurar a culpa exclusiva da vítima e, por conseguinte, afastar a responsabilidade objetiva do empregador pelo acidente de trânsito sofrido pelo ex-empregado, haja vista o dever da demandada de exigir e fiscalizar o uso do equipamento de segurança sob comento-.

Os arestos transcritos nas razões recursais, a seu turno, resultam inservíveis ao fim colimado pela parte, porque superados pela jurisprudência iterativa e notória deste Tribunal Superior do Trabalho.

A colenda SBDI-I tem reiteradamente decidido no sentido de se adotar a teoria da responsabilidade civil objetiva nas ações de indenização por dano moral ou patrimonial, decorrentes da relação de trabalho bem como tem decidido que a atividade de condutor de veículo rodoviário (motorista de caminhão) configura atividade de risco. Nesse sentido, observem-se os seguintes precedentes:

TEORIA DA RESPONSABILIDADE OBJETIVA. APLICAÇÃO AO DIREITO DO TRABALHO. 1. Insurge-se a embargada contra a aplicação, no direito do trabalho, da teoria da responsabilidade objetiva, frente à disposição contida no art. 7º, XXVIII, da CF. 2. É aplicável o parágrafo único do art. 927 do Código Civil nas relações trabalhistas, especialmente porque a norma contida no inciso XXVIII do art. 7º da Constituição da República deve ser interpretada em harmonia com o que prevê o caput do respectivo artigo. O elenco de direitos relacionados no art. 7º da Carta Magna é meramente exemplificativo, prevendo direitos mínimos, ao expressamente admitir outros direitos "que visem a melhoria da condição social do trabalhador", de modo que não há impedimento ou incompatibilidade de lei ordinária, como é o caso do Código Civil, ampliar ou acrescer direitos ali elencados. Precedentes. Recurso de embargos conhecido, no tema, e não provido. (E- ED-RR - 64440-93.2007.5.02.0255 Data de Julgamento: 14/05/2015, Relator Ministro Hugo Carlos Scheuermann, Subseção I Especializada em Dissídios Individuais, Data de Publicação: DEJT22/05/2015).

RECURSO DE EMBARGOS INTERPOSTO SOB A ÉGIDE DA LEI N.º 11.496/2007. DANO MORAL, ESTÉTICO E MATERIAL. ACIDENTE DO TRABALHO. TRANSPORTE RODOVIÁRIO DE CARGAS. ATIVIDADE DE RISCO. MOTORISTA DE CAMINHÃO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO EMPREGADOR. 1. O novo Código Civil Brasileiro manteve, como regra, a teoria da responsabilidade civil subjetiva, calcada na culpa. Inovando, porém, em relação ao Código Civil de 1916, ampliou as hipóteses de responsabilidade civil objetiva, acrescendo aquela fundada no risco da atividade empresarial, consoante previsão inserta no parágrafo único do artigo 927. Tal acréscimo apenas veio a coroar o entendimento de que os danos sofridos pelo trabalhador, decorrentes de acidente do trabalho, conduzem à responsabilidade objetiva do empregador quando a atividade laboral é considerada de risco. 2. A atividade de condutor de veículo rodoviário (motorista de caminhão - transporte de cargas) expõe o trabalhador rodoviário à ocorrência de sinistros durante as viagens, como no caso dos autos, em que ocorreu acidente de trânsito seguido de morte do empregado. Em tais circunstâncias, deve o empregador responder de forma objetiva na ocorrência de acidente de trabalho no trânsito, por se tratar de evento danoso ao direito da personalidade do trabalhador. Incidência do parágrafo único do artigo 927 do Código Civil. 3. Recurso de embargos a que se nega provimento. (E- ED-RR - 96600-26.2008.5.04.0662 Data de Julgamento: 09/10/2014, Relator Ministro: Lelio Bentes Corrêa, Subseção I Especializada em Dissídios Individuais, Data de Publicação: DEJT 07/11/2014).

RECURSO DE EMBARGOS INTERPOSTO SOB A ÉGIDE DA LEI N.º 11.496/2007. DANO MORAL, ESTÉTICO E MATERIAL. ACIDENTE DO TRABALHO. TRANSPORTE RODOVIÁRIO DE CARGAS. ATIVIDADE DE RISCO. MOTORISTA DE CAMINHÃO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO EMPREGADOR. 1. O novo Código Civil Brasileiro manteve, como regra, a teoria da responsabilidade civil subjetiva, calcada na culpa. Inovando, porém, em relação ao Código Civil de 1916, ampliou as hipóteses de responsabilidade civil objetiva, acrescendo aquela fundada no risco da atividade empresarial, consoante previsão inserta no parágrafo único do artigo 927. Tal acréscimo apenas veio a coroar o entendimento de que os danos sofridos pelo trabalhador, decorrentes de acidente do trabalho, conduzem à responsabilidade objetiva do empregador quando a atividade laboral é considerada de risco. 2. A atividade de condutor de veículo rodoviário (motorista de caminhão - transporte de cargas) expõe o trabalhador rodoviário à ocorrência de sinistros durante as viagens, como no caso dos autos, em que o reclamante sofreu acidente de trânsito. Em tais circunstâncias, deve o empregador responder de forma objetiva na ocorrência de acidente de trabalho no trânsito, por se tratar de evento danoso ao direito da personalidade do trabalhador. Incidência do parágrafo único do artigo 927 do Código Civil. 3. Recurso de embargos a que se nega provimento. (E- ED-RR - 201900-26.2009.5.09.0654 Data de Julgamento: 25/09/2014, Relator Ministro: Lelio Bentes Corrêa, Subseção I Especializada em Dissídios Individuais, Data de Publicação: DEJT 03/10/2014).

RECURSO DE EMBARGOS EM RECURSO DE REVISTA. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAL E MATERIAL DECORRENTE DE ACIDENTE DE TRABALHO. MOTORISTA DE CAMINHÃO EM RODOVIAS. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. Entende-se, como regra geral, que a responsabilidade do empregador, em se tratando de dano moral decorrente de acidente de trabalho, é subjetiva, mas, uma vez demonstrado que a atividade era de risco, ou seja, que o dano era potencialmente esperado, dadas as atividades desenvolvidas, não há como negar a responsabilidade objetiva da empresa. No caso dos autos, indene de dúvidas que a função exercida pelo empregado, como motorista carreteiro, o colocava em maior probabilidade de vir a sofrer acidentes rodoviários, levando em conta o arriscado e complicado trânsito das rodovias brasileiras e a possibilidade de enfrentar condições adversas no que concerne às condições de tráfego. É incontestável também que a empresa se utilizava da força de trabalho do empregado na condução de veículos em estradas, no transporte rodoviário de cargas. Trata-se portanto, de típica responsabilidade objetiva. Precedentes. Recurso de embargos conhecido por divergência jurisprudencial e não provido. (E- ED-RR - 276-57.2010.5.03.0071 Data de Julgamento: 07/08/2014, Relator Ministro: Alexandre de Souza Agra Belmonte, Subseção I Especializada em Dissídios Individuais, Data de Publicação: DEJT22/08/2014).

Pacificada a controvérsia pela jurisprudência iterativa, atual e notória desta Corte uniformizadora, resultam incabíveis os embargos, não se justificando o processamento do recurso.

CONCLUSÃO

DENEGO seguimento aos Embargos.

Publique-se.

Brasília, 01 de junho de 2015.

Firmado por assinatura digital (MP 2.200-2/2001)

Lelio Bentes Corrêa

Ministro Presidente da Primeira Turma


fls.


Disponível em: https://tst.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/196076729/embargos-declaratorios-e-ed-arr-4012720135120020/inteiro-teor-196076747